Tinham Tudo e Não Sabiam

21/05/2010

No exato dia em que completariam 10 anos de casados decidiram apartar-se. Sim, apartar-se, porque separados já estavam há tempos.

Ela perguntou se ele seria feliz sem ela. Ele disse sim. Ele queria paixão. Ela queria paz. Eram como fogo e água.  Ela era o fogo, incendiava a vida de ambos, com sonhos e anseios. Ele era a água, rotina e previsão.

Cada um queria do outro exatamente o que tinha e mesmo assim se perderam.

Sábado de Cinzas

13/02/2010

Se a cidade pudesse tomar a palavra, naquele sábado de cinzas disfarçado de carnaval, teria o que dizer àqueles que ainda acreditam no “rouba, mas faz”. Com pudor e dignidade, escreveria um recado breve:

Não quero quem rouba, mas faz. Quero quem faz.

Quero quem reconhece o sacrifício diário e contínuo do cidadão e do empresário idôneo, que pagam seus impostos para que esta Polis funcione.

Quero mais que retórica, mais que moralidade atuada, mais que obras – as obras nada mais são que uma vitrine de álibes admirados todos os dias por aqueles a caminho do trabalho.

Quero que este quadro vergonhoso sirva de aprendizado e que nunca mais se apoderem de mim homens que usam de trapaça e choram, porque são esses os que roubam, mas fazem.

Jogos de Azar

11/02/2010

Tinha poder e prestígio, mas era pouco. Queria o dinheiro de quem se dispusesse a entrar no  jogo que flexibiliza o caráter em nome da prosperidade. Esqueceu de contar com o azar e, em uma única rodada, perdeu tudo: o poder, o prestígio e o dinheiro. Naquele dia não dormiu em casa.

Em Nome do Pai

10/02/2010

Era tarde demais para dormir e cedo demais para acordar. Ele não conseguia saber se era ontem ou amanhã. Abriu uma gaveta na mesa do escritório, sem fazer barulho para que ninguém mais da casa despertasse, entrando na nuvem suspensa da madrugada.

Era ali que guardava o bilhete do pai, que dizia: “Faça o que diz seu coração, mesmo que ele pareça conduzi-lo ao caos. Lembra sempre, filho, que em todo caos há um atrator de ordem”.

Seu pai foi a pessoa mais pacífica e feliz que conheceu. Sem qualquer ambição chegou muito mais longe do que poderia sequer imaginar. Num tempo sem GPS, certamente seu coração tinha o mapa.

Para uma Amiga que Falou Demais

09/02/2010

Verdades ao vento somente as de amor

Você anda triste porque alguém de seu meio profissional descreveu-a publicamente de uma maneira que pouco retrata sua verdadeira personalidade. Amigos me contaram que você retrucou com assertividade cada palavra descuidada que o tal colega falou.

Por lhe querer muito bem não consigo e não tenho desejo de esconder a minha percepção em relação ao tal episódio. Parece que tudo não passou de uma dessas armadilhas com as quais nos deparamos, e o pior, nas quais caímos com certa freqüência. Afinal, foram feitas sob medida.

Não quero dizer aqui que ele tenha arbitrariamente feito isso para colocar você em uma situação difícil. Mas a tal dinâmica das relações é tão complexa, que sabemos onde o calo do outro aperta e por alguma razão subjetiva pisamos exatamente no pé que dói. O fato é que seu colega sabia que você reagiria e que reagiria emocionalmente.

O episódio me reportou imediatamente às situações nas quais me senti injustiçada – e você acompanhou algumas. Como gritei. Pensava que quanto mais alto falasse, melhor seria ouvida. Que quanto mais detalhista fosse, melhor seria compreendida. Ao final, minha mensagem não chegava “lá”.

De tombo em tombo aprendi que chego “lá” quando não preciso atender às convocações do outro, ou seja, quando não caio mais no chamamento ao conflito. Chego “lá” quando não preciso mais bradar aos quatro ventos as minhas verdades. Hoje, verdades ao vento somente as de amor.

Não gosto de vê-la exposta. Não me faz bem pensar que podem usar qualquer palavra sua contra você. Ou que alguém possa dizer qualquer coisa desse coração que transborda de tantos sonhos, ideais, vida.

O que posso dizer? Saia do campo de batalha. Deixe o outro lá sozinho. Parece que ganhou? Depende da perspectiva. Ele ganha essa e permanece lá no mesmo lugar onde está há décadas. A você, cabe explorar outros espaços, sabendo sempre que a vida é a tela do cinema e não o filme projetado. Podem até apagar a projeção, mas a tela estará lá pronta para acolher um novo e instigante roteiro.

E do texto “Desiderata”, encontrado na velha Igreja de Saint Paul, em Baltimore – datado de 1692, ficam algumas palavras: “siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se de que há sempre paz no silêncio”.

Breve Verdade

08/02/2010

“Quando uma relação se encerra, com ela se encerra a zona de conflito”, disse o executivo que por vezes fazia o papel de coach. Ela olhou para ele como quem enxerga a verdade. Agora podia descansar.

A Irmã da Aniversariante

08/02/2010

Ela chegou discretamente, ainda sem saber se ficaria ou não. Sentou-se afastada dos grupos já formados. Aceitou o primeiro champagne. E por insistência de Laura, amiga da aniversariante, foi parar em uma das mesas.

Quando quebrou o silêncio, após meia dúzia de taças, deixou todos desconfortáveis. “Meu marido está apaixonado”. Assim, sem rodeios, lançou no ventilador da festa os detritos de seu casamento. Uma década de união, dois lindos filhos ainda na primeira infância e o descuido daqueles que se julgam eternamente unidos por sacramento.

Ela, a irmã da aniversariante, transformou a despretensiosa celebração em um filme europeu. À medida que desfiava seu sofrimento de maneira despudorada, provocava reações que, embora silenciosas, faziam um ruído insuportável. A presença de um único personagem modificava por inteiro a trama, antes aguada e morna.

Para um dos casais, ela foi prontamente rotulada de mulher amarga, uma dessas que a sociedade orgulhosamente chama de mal-amada. Estranho pensar que mesmo incomodados, Marta e Ricardo permaneceram até o final, no mesmo local. Soube-se que no dia seguinte Marta afirmou que o abalo conjugal da irmã da aniversariante era irreversível. “Ninguém pode com um homem apaixonado”. A verdade é que ela e Ricardo jamais compartilharam projetos, uma mesma casa, filhos e tudo mais que vincula duas pessoas apesar dos descaminhos. 

Para Cláudio, marido de Laura, a irmã em crise era a pessoa mais bem-vinda porque, com sua autenticidade, havia transformado o salão de festa em um espaço cercado de espelhos por todos os lados. Estar ali demandava uma escolha: adotar uma postura ajuizadora ou acolher e aceitar a dor daquela mulher – que poderia ter sido ou vir a ser, um dia, a dor de qualquer um. E todos sabiam disso.

No final da festa, ela pediu para levar para casa uma garrafa de espumante. Naquela noite, dormiu nos braços do marido, após expressar pela primeira vez o quanto o amava. Já alguns convidados passaram a noite em claro.

Por que?

08/02/2010

Tinha um filtro negro que o protegia do mundo, em seu carro potente que desafiava o bom senso. Dirigia apenas na pista de ultrapassagem. Nunca usava a seta para avisar seu destino. Conduzia como se só estivesse e certamente só estava.

Até que ela ousou ultrapassá-lo, meio sem jeito, pela pista da direita. Encontraram-se à frente, na primeira passagem de pedestres. Ela, sem filtro. Ele, trancado em sua armadura. Baixou o vidro para chamar a atenção dela, que irresponsavelmente o havia ultrapassado. Tinha cabelos brancos e ar arrogante, chamou-a de louca e voltou para seu universo escuro.

Fazia um lindo dia azul no planalto central. Talvez ele nunca se dê conta disso.

Em Nome da Liberdade

07/02/2010

No início ele não sabia, aquela era uma nereida. Metade mulher, metade peixe, de longos cabelos entrelaçados por pérolas. Sua beleza ofuscava as ameaças. Mais alguns instantes e ela dominaria seu coração e nunca mais ele seria livre como antes. Ele decidiu ficar e iniciou o mergulho que lhe tomaria a respiração para sempre.

Porém, quando se entregou ao oceano, viu que era feito de ar e que era de liberdade que a nereida se nutria, da liberdade que ele teria que abandonar. Em um impulso emergiu, recobrou o fôlego e nadou em direção à embarcação. Perdia a nereida, ganhava a si mesmo.

Para Clarice

07/02/2010

Este blog já devia ter nascido. Passou do tempo. Quase embotou. Chega à vida num domingo chuvoso, em Brasília. O parto é natural, finalmente. Acontece sem analgesia e sem dor, após um mergulho nas gavetas de Clarice Lispector, no CCBB. Clarice foi a doula, melhor impossível. E é dela uma das citações que mais amo:

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas… continuarei a escrever.”


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