Verdades ao vento somente as de amor
Você anda triste porque alguém de seu meio profissional descreveu-a publicamente de uma maneira que pouco retrata sua verdadeira personalidade. Amigos me contaram que você retrucou com assertividade cada palavra descuidada que o tal colega falou.
Por lhe querer muito bem não consigo e não tenho desejo de esconder a minha percepção em relação ao tal episódio. Parece que tudo não passou de uma dessas armadilhas com as quais nos deparamos, e o pior, nas quais caímos com certa freqüência. Afinal, foram feitas sob medida.
Não quero dizer aqui que ele tenha arbitrariamente feito isso para colocar você em uma situação difícil. Mas a tal dinâmica das relações é tão complexa, que sabemos onde o calo do outro aperta e por alguma razão subjetiva pisamos exatamente no pé que dói. O fato é que seu colega sabia que você reagiria e que reagiria emocionalmente.
O episódio me reportou imediatamente às situações nas quais me senti injustiçada – e você acompanhou algumas. Como gritei. Pensava que quanto mais alto falasse, melhor seria ouvida. Que quanto mais detalhista fosse, melhor seria compreendida. Ao final, minha mensagem não chegava “lá”.
De tombo em tombo aprendi que chego “lá” quando não preciso atender às convocações do outro, ou seja, quando não caio mais no chamamento ao conflito. Chego “lá” quando não preciso mais bradar aos quatro ventos as minhas verdades. Hoje, verdades ao vento somente as de amor.
Não gosto de vê-la exposta. Não me faz bem pensar que podem usar qualquer palavra sua contra você. Ou que alguém possa dizer qualquer coisa desse coração que transborda de tantos sonhos, ideais, vida.
O que posso dizer? Saia do campo de batalha. Deixe o outro lá sozinho. Parece que ganhou? Depende da perspectiva. Ele ganha essa e permanece lá no mesmo lugar onde está há décadas. A você, cabe explorar outros espaços, sabendo sempre que a vida é a tela do cinema e não o filme projetado. Podem até apagar a projeção, mas a tela estará lá pronta para acolher um novo e instigante roteiro.
E do texto “Desiderata”, encontrado na velha Igreja de Saint Paul, em Baltimore – datado de 1692, ficam algumas palavras: “siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se de que há sempre paz no silêncio”.